Pregação
Quem não se lembra da cena icônica de Tropa de Elite, onde o Capitão “Naiscimento” está no ódio para pegar o Baiano e este aprece comendo sua marmita entocado:
- Tem parada errada aí meu irmão. Tá muito tranquilo esse morro!
Esse sou eu quando tem visita em casa.
Ouvi vozes na sala e hesitei se descia ou não. Um parente meu viria fazer uma visita. Estranhei que ninguém veio me chamar pra fazer sala. Poderia fingir que nada era comigo, mas resolvi descer.
Na noite anterior já fiz minha predição…
A tal tia, iria achar uma brecha pra vir com esses papos de crentes que eu acho um saco.
Conversa vai, conversa vem… e então o assunto testemunhal surge.
Eu não sou cristão e nunca fui. Já tentei me encaixar e senti muita culpa na minha vida por querer ter fé mas não acreditar em Deus. Até que achei uma religião que se encaixava nos meus pré-requisitos e “me encontrei”.
Acho normal quando você se seduz por uma religião, querer sair convertendo todo mundo e dar seu testemunho.
Mas se você tem um mínimo de bom senso, começa a aprender que se continuar assim, irá perder todos os seus amigos e os parentes irão se afastar. Ou seja: você percebe que está sendo inconveniente.
Faltou pouco pra eu me retirar tamanha aversão que sinto nessas situações.
Comecei a dar sinais de incômodo do tipo pegar o celular…. mas gente assim acha que tem de pregar a palavra e provavelmente quando ela percebeu meu incômodo, insistiu mais ainda. Nessa hora, deve ter pensado que o demônio se apossou de mim e entrou em uma batalha direta com ele.
Só não sabia que o demônio encarnado estava sentado na mesa com ela.
Não gosto de falar da minha fé aleatoriamente porque concordo com Jesus:
- ORE EM SILÊNCIO EM SEGREDO NO SEU QUARTO.
Falando sério… não gosto muito de expor meu lado religioso, porque penso que é como se estivesse banalizando o que é sagrado em mim.
Tem na Bíblia também. Não encha o saco dos ímpios sem fé.
Se não tem, agora tem. Porque tal qual os Neopentec, vou pregar aquilo sobre o que nunca li e acho que tem ali na Bíblia.
Outra coisa que me irrita é quando cruzo com um Testemunho de Jeová e os tais me abordam.
Aí eu falo:
- Obrigado, já tenho minha própria religião.
- Eu te respeito tá, respeito tua religião.
- Foda-se se você respeita. Estamos num país laico, é o mínimo.
Aliás, eu não respeito a sua.
Só que fico quieto porque eles gostam de entrar em embate com o demônio, no caso, eu.
Bateu uns testemunhas de jeová em casa e eu fui atender só porque a menina era bonitinha.
Mas colou o pai dela em seguida e daí eu falei:
- Eu já tenho minha religião.
O bom é quando elas te acordam domingo de manhã e você vai atender com ereção matinal. Já me aconteceu.
Nesse dia fiz questão de ir até o portão só de sacanagem.
Um dia a mulher quis dar um panfletinho:
- Posso deixar com você?
- Não obrigado, nem vou ler.
Falei não em forma de desprezo, mas porque eu ia jogar aquilo no lixo. Então por respeito, eu não peguei a revistinha. Por mais que não seja sagrado pra mim, respeito que seja pra ela e não iria pegar algo que fosse tratar com desprezo.
O diabo às vezes se manifesta em forma de sinceridade.
…
Na mesa descobri um pouco mais sobre meu avô materno. Entre os papos de crente, também se resgatou umas histórias antigas que aí sim, me interessavam.
Não sabia que ele era japonês, pensei que ele tinha nascido no Brasil.
Minha tia falou que ele visitou o Japão e foi de Okinawa para Tóquio sozinho.
Então perguntei:
- Uéh, então ele era alfabetizado em japonês.
- Sim, ele nasceu lá. Falava e escrevia bem.
Minha cabeça explodiu.
Ele era de Okinawa e estava revisitando seu país natal.
Até então pensava que da parte materna, eu era a quarta geração. Só minha avó que era descendente nascido no Brasil. O resto dos meus avós eram todos japas. Então eu sou a terceira geração mais um quarto.
Eu tenho traços de Okinawês. É uma raça de japonês que é malvista e eles consideram impuros. Me orgulho disso. Embora, seja eugenista contra mestiços. O sujo falando do mal lavado.
Sério, não gosto de mestiços.
E gosto de dizer que não gosto de chineses nem coreanos. Embora, Okinawês seja uma mistura dessas etnias aí. Menos mal. Se tenho traços de coreano, posso pegar umas tiazinhas dorameiras.
Aí minha tia volta nos assuntos de crente.
Falou que meu avô não tinha fé. Que detestava religião. E que ele falava assim:
- Cristão é tudo filho da puta!
Dei uma gargalhada e em silêncio pensei:
- Pô, meu avô era foda pra caralho. Virei fã.

