Cartas
Estou lendo um livro onde tem uns registros de diário do Fernando Pessoa e também cartas que ele trocou.
Na parte que estou, os registros são de 1907, creio que ele tinha 17 anos. Os registros de diário variam sobre seus estudos, leituras, banalidades e reflexões profundas.
Como disse várias vezes por aqui, gosto de saber o que está por trás da obra do autor. Seu pensamento bruto, por assim dizer. Acho que essa leitura abre um caminho maior para entender a produção de Fernando Pessoa. Mas na real, o lance é matar a curiosidade, sentir-se mais próximo dele.
Tenho vontade de postar alguns trechos aqui. Não por vaidade intelectual, mas porque quero compartilhar do meu assombro. E se tem algo que detesto é publicar citações. Não faz muito sentido pra mim. E dá um ar de vaidade intelectual.
A dinâmica de troca de cartas tem sua própria estética. Tenho muita vontade de trocar correspondências assim.
Esses dias estava fazendo uma limpa nos meus e-mails. Tinham 3000 não lidos, estava bem abandonado. Até que desenterrei uns bem antigos, onde trocava e-mails longuíssimos com algumas pessoas. Não tenho coragem de reler, tenho vergonha das coisas que escrevi. Se fossem cartas físicas, acho que seria mais legal.
Entre essas trocas, está de uma pessoa que me apaixonei platonicamente quando tinha 15 anos. Fiz uma conexão com ela uns 15 anos depois. Trocamos e-mails e lá ela comenta que se sente nas antigas, já era época em que trocar e-mails era considerado ultrapassado.
Sobre trocar cartas, surgiu uma possibilidade.
Uma pessoa que conheço, irá entrar em um retiro do budismo tibetano. O famoso retiro de : 3 anos, 3 meses e 3 dias, para quem sabe do que se trata. Não vou dar detalhes de qual escola é e etc. Não vem ao caso.
Aí num jantar de despedida, ela comentou que ficaria isolada todo esse tempo. Só era permitido trocar cartas. Então eu disse: - Pô, me manda uma carta quando estiver lá!
Não sei se ela irá mandar uma para mim ou para toda a minha família no geral. Mas vou querer receber algo escrito e mandar algo escrito. Seria um baita de um registro.
Receber uma carta pra quem está em um retiro desses deve ser muito louco. Eu quero! Eu quero! Eu quero!
Um rapaz que fez um retiro desses porém realizado no Brasil, comentou sobre as correspondências. No começo ele diz que eram frequentes. Mas depois, as pessoas vão te esquecendo e vivendo as suas prioridades. Relatou que teve a sensação de que aos poucos estava morrendo pra elas.
É bem interessante pensar sobre isso.
O que as pessoas realmente amam? Nós em essência, ou nossa atividade?
Se não temos novidades ficamos desinteressantes a ponto de morrer?
Quem somos além do que fazemos?
Não sei qual o teor permitido numa troca de correspondência dessas. Eu iria encher a pessoa de perguntas talvez. Não sei. Mas seriam cartas genuínas.
Não sei se um dia farei um retiro desses nessa vida. Mas gostaria sim, de ter uma oportunidade de investigar a própria mente nessa intensidade. Três anos sem contato com o mundo externo, olhando pra si mesmo, deve ser desesperador. Pensando bem, querer não é poder.
Hoje, no máximo troco mensagens e áudios logos por Whats. E mesmo essa prática está se esgotando. Não tem o mesmo charme do que é físico.
Pra falar a verdade, nem na minha época de Djovem eu troquei cartas com pessoas. Aos 15 anos já tinha e-mail. Aos 12 se trocava Bipe.
Lembro de um dia estar num Shopping e um amigo meu e eu de 12 anos, vimos um rapaz falando no orelhão para uma intermediadora de Bipe sobre o rolê deles.
Ele falava meio que ditando:
- Es ta mos no Sho pping A go ra a ca bamos de jo gar bo li che e nos diver ti mos mui to. A go ra ire mos co mer! Um a bra ço pra vo cês!
Meu amigo todo blasé olha pra mim e diz:
- Isso é uma bosta mesmo né.
A gente achava isso brega pra um caraleo. Patético.
Mas carta física não.
Jamais sairá de moda.
Jamais perderá o seu charme.


Prefiro os seus áudios de 10 min. Risos
Não resisti em te abusar… hahahaha
Trocar carta é legal demaisss